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A I.A. clonou a Adobe? O que o caso ArtCraft ensina sobre o valor do software

Por Christian Alves, fundador da SINOON
6 min
Engenharia reversaClaudeEstratégia

Não. Em outubro de 2026, o desenvolvedor Brandon Thomas, do ArtCraft, viralizou com apps gratuitos e de código aberto que se apresentam como alternativas a programas da Adobe, como o PhotoCraft (Photoshop) e o FilmCraft (Premiere Pro), escritos em Rust com ajuda do Claude Opus 5.5. Os próprios repositórios dizem que os apps estão em alfa e ainda não substituem o Photoshop no trabalho profissional. A lição para empresas é outra: escrever software ficou mais barato, e o diferencial passa a estar nos dados, nos serviços e na experiência que vêm junto com ele.

Tela do PhotoCraft editando a gravura A Grande Onda, de Hokusai, com painel de curvas, histograma e camadas de ajuste e de texto
O PhotoCraft, alternativa aberta ao Photoshop, em alfa. Imagem: ArtCraft (press kit)

O que aconteceu

Em 30 de setembro de 2026, o ArtCraft, estúdio de ferramentas criativas fundado pelo desenvolvedor americano Brandon Thomas, começou a publicar no GitHub uma série de aplicativos gratuitos e de código aberto. Nos dias seguintes, o projeto viralizou com uma promessa ousada: oferecer alternativas aos principais programas da Adobe.

  • ✓PhotoCraft, editor de imagens, no lugar do Photoshop.
  • ✓VectorCraft, ilustração vetorial, no lugar do Illustrator.
  • ✓FilmCraft, edição de vídeo, no lugar do Premiere Pro.
  • ✓LightCraft, revelação e catálogo de fotos, no lugar do Lightroom.
  • ✓EffectCraft, animação e efeitos, no lugar do After Effects.
  • ✓DesignCraft, diagramação, no lugar do InDesign.
  • ✓PdfCraft (lançado como PrintCraft), para PDFs, no lugar do Acrobat.

Quem está por trás e como os apps foram feitos

Segundo o TechSpot, Thomas contou que escreveu os apps em Rust com a ajuda do Claude Opus 5.5, modelo da Anthropic, citou as taxas de cancelamento da Adobe como motivação e resumiu o momento com a frase "software is over" (o software acabou). Desde então, a página oficial do ArtCraft passou a listar apps semelhantes para planilhas, apresentações, áudio e CAD.

O caso virou o símbolo de uma discussão maior sobre engenharia reversa com I.A., que ganhou força na mesma semana com o REA, ferramenta que coloca agentes de I.A. para analisar programas compilados.

Os apps são cópias da Adobe?

Não no sentido de usar o código da Adobe, segundo o próprio projeto. O repositório do PhotoCraft o descreve como uma reimplementação em sala limpa do Photoshop, construída apenas a partir de especificações públicas e do comportamento observado do programa, sem código, shaders ou arquivos da Adobe, e afirma não ter vínculo com a empresa. A licença é MIT ou Apache-2.0, à escolha de quem usa.

Sala limpa (clean room) é um método antigo: uma equipe estuda e documenta o comportamento do produto original, e outra, que nunca viu o código dele, escreve uma implementação nova a partir dessa documentação. Foi assim que o BIOS do PC da IBM foi recriado nos anos 1980. No caso do ArtCraft, essa é a alegação do desenvolvedor; até a publicação deste texto, não encontramos verificação independente.

O que já funciona e o que falta

Aqui aparece a distância entre a manchete e o produto. O README do PhotoCraft, o app mais maduro da série, diz que ele está em alfa e que ainda não substitui o Photoshop no trabalho profissional do dia a dia. As maiores lacunas apontadas pelo próprio projeto são os recursos de I.A. generativa, ferramentas que ainda faltam, a profundidade da tipografia e a compatibilidade com plug-ins. Os demais apps aparecem como alfa ou em desenvolvimento na página oficial.

A análise do desenvolvedor Fabio Akita acrescenta problemas que só aparecem no uso real: centenas de problemas abertos no repositório, gerenciamento de cor limitado para impressão (CMYK e perfis ICC), consumo alto de memória em imagens muito grandes e incompatibilidades com arquivos PSD. Em resumo: a captura de tela impressiona, e o produto ainda está em construção.

Tela do VectorCraft editando um pôster em estilo neon com o título NEON DRIVE selecionado e o painel de aparência aberto
O VectorCraft, alternativa ao Illustrator, segue o layout de painéis que os profissionais já conhecem. Imagem: ArtCraft (press kit)

Por que o software da Adobe não cabe num clone

O ponto mais interessante do caso não é o que o ArtCraft fez, e sim o que ele não consegue fazer, por mais tokens que gaste. Boa parte do valor de um software moderno não está no programa instalado:

  • ✓Serviços na nuvem: recursos como o preenchimento generativo do Photoshop são processados nos servidores da Adobe.
  • ✓Dados acumulados: perfis de câmeras e lentes e décadas de ciência de cor.
  • ✓Licenças e parcerias: a Pantone saiu das bibliotecas gratuitas da Adobe em 2022, e as transformações de cor de câmeras de cinema chegam por contratos com os fabricantes.
  • ✓Evolução constante: um produto vendido por assinatura muda toda semana, e o clone precisa correr atrás.
Tela do LightCraft revelando a fotografia The Tetons and the Snake River, de Ansel Adams, com controles de luz e efeitos
O LightCraft, alternativa ao Lightroom. Perfis de câmeras e lentes, acumulados durante décadas, são parte do valor que não está no programa. Imagem: ArtCraft (press kit)

A lição para quem vende software

Se o seu produto é principalmente um conjunto de telas e cadastros que qualquer pessoa vê funcionando, ele ficou mais barato de copiar. Não por engenharia reversa do código, mas porque a I.A. reduziu o custo de escrever um software parecido. O que continua difícil de copiar:

  • ✓Dados próprios: o histórico, a base de clientes e o conhecimento acumulado que só o seu produto tem.
  • ✓Serviços no servidor: o que acontece fora do aparelho do usuário não pode ser desmontado.
  • ✓Integração com o processo do cliente: quanto mais o produto está encaixado na operação, maior o custo de trocar.
  • ✓Relacionamento e suporte: confiança, atendimento e implantação não saem de um repositório.
  • ✓Velocidade: quem evolui o produto toda semana deixa o clone sempre um passo atrás.

A lição para quem compra software

O caso também mostra o outro lado: ficou mais barato construir ferramentas sob medida. Para muitas empresas, a pergunta deixou de ser "qual sistema eu assino?" e passou a ser "vale a pena ter uma ferramenta própria para este processo?".

A resposta depende do custo total, não só da licença: manutenção, segurança, suporte e treinamento do time entram na conta. Um app aberto e gratuito pode sair caro se ninguém na empresa souber mantê-lo. É o tipo de comparação que fazemos na consultoria em I.A., na frente de escolha de ferramentas, e, quando o sob medida compensa, nos agentes personalizados.

Perguntas frequentes

O que é o ArtCraft?

É um estúdio de ferramentas criativas fundado por Brandon Thomas, que publica apps gratuitos e de código aberto, como o PhotoCraft e o FilmCraft, apresentados como alternativas a programas da Adobe.

Os apps do ArtCraft são gratuitos?

Sim. São gratuitos e de código aberto, sob licença MIT ou Apache-2.0.

O PhotoCraft substitui o Photoshop?

Ainda não. O próprio repositório diz que o app está em alfa e que ainda não substitui o Photoshop no trabalho profissional do dia a dia.

Os apps foram feitos com engenharia reversa do código da Adobe?

Segundo o projeto, não: seriam reimplementações em sala limpa, feitas a partir de especificações públicas e do comportamento observado, sem código da Adobe. Por enquanto, não há verificação independente dessa afirmação.

A Adobe vai acabar?

Nada indica isso. Boa parte do valor da Adobe está em serviços na nuvem, dados, licenças e parcerias, que não podem ser copiados a partir do programa instalado.

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